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domingo, maio 09, 2004

Para sempre... 

-Estou? É do 112?

A ambulância chegou dez minutos depois, disfarçada de carrinha funerária. Levou o corpo morto (e outro meio morto) para o hospital e acelerou para o outro lado da cidade, como resposta a outra chamada idêntica. A mãe agarrou-se ao corpo dela, a chorar, a gritar, a implorar para que acordasse do pesadelo. Perto dali, um rapaz novo, sentado na areia da praia, pensava no que seria agora a sua vida, enquanto duas gotas caíam da sua alma e se juntavam ao mar.

Cátia e Mário. Desde sempre. Sempre juntos.

Naquela noite, os pais dela não a quiseram deixar sair. Regressaria muito tarde, o pai estava cansado e vir sozinha nem pensar! Mas era uma festa de anos!

-Tens de ir, Cátia! Eu vou aí buscar-te!
-Não, Mário, não posso!
-Sais às escondidas. Despois dos teus pais adormecerem mandas-me um toque para o meu telemóvel e eu peço o carro ao Telmo e vou aí buscar-te. Os teus pais não precisam de saber de nada!
-Humm... E como voltamos? A que horas?
-Logo se vê! Às horas que tu quiseres...
-E se os meus pais acordam?

Mas ela foi. E nessa noite olhou para os pais com mais ternura do que o costume, sentindo-se já culpada pelo que ainda não tinha feito. Deu-lhes um beijo de boa noite e...
A festa estava a ser uma seca. O pessoal estava todo bêbado e a maior parte fumava charutos. O que lhe valeu foi ter o Mário ali ao lado, como sempre. Já preocupada com as horas, pediu-lhe para voltarem e ele foi pedir a chave ao Telmo, mas este recusou-se a emprestá-la.

-No meu Lord ninguém toca! Eu conduzo!
-Mas Telmo é só um Fiat! E tu estás bêbado!

-Ok... Cátia! Anda!

Ela ainda tentou convencer o amigo a deixar conduzir o namorado, mas foi em vão. Arrancou. Acelerou. E acelerou ainda mais até à morte da rapariga, porque subitamente apareceram à sua frente sinais amarelos e óleo e um carro na outra via. Havia obras na estrada, mal sinalizadas, pois não estavam colocadas com antecedência. Era como se fizessem parte da própria obra! Telmo assustou-se e rodou o volante. O óleo mal limpo na estrada fê-lo perder o controlo do carro em alta velocidade que o fez embater no carro que vinha de frente.

Aquela noite mudou para sempre a vida de cinco pessoas. Os pais morreram por dentro. O Mário nunca mais foi o mesmo, sentindo-se culpado pela morte dela, fazendo do psicólogo a sua tentativa de cura. O condutor vitimado ficou paraplégico, obrigando o Telmo a pagar-lhe indemnizações e todos os gastos, o que, mesmo assim, o deixou revoltado com a justiça portuguesa, visto que a pena aplicada foi uma inibição de conduzir e o pagamento de uma coima. Como é que alguém que destrói assim a vida de tantas pessoas não é condenado sequer a alguns anos de prisão? A culpa também foi da estrada, sim: as obras mal sinalizadas e os restos de óleos no chão, deixados provavelmente pela máquinas da obra, mas... e a velocidade?!... E o álcool?!...

-Cuidado, Telmo! Olha o carro! Vamos bater!

Os gritos e avisos desesperados foram as últimas palavras de Cátia.

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